MAIO (BRASIL)

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Pra estrear nossa série (Filmes para se guardar e filmes para se queimar), e também nosso blog, decidimos trazer nesse mês de maio, filmes nacionais. Então, abaixo vocês encontrarão uma indicação de um ótimo filme, e em seguida, um alerta sobre um que não deve ser visto; ambos feitos aqui, na nossa pátria amada. Lembrando que, excepcionalmente, por se tratar da estréia do blog, a série será postada antes do fim do mês, o que não quer dizer que teremos outra em maio. Apreciem.

 

FILME PARA SE GUARDAR – ESTÔMAGO (2007)

Estômago (2007) - Dirigido por Marcos Jorge e protagonizado por João Miguel

 

 

Quando tocamos no assunto cinema nacional, não é difícil encontrarmos alguém por aí desferindo alguma crítica referente ao uso de nudez, sexo, e palavrões. Em virtude da pornochanchada, estilo que abusava das cenas eróticas, sem sexo explícito, e das palavras consideradas de baixo calão, comum na década de setenta, ainda hoje os títulos brasileiros carregam o estigma de filmes de sacanagem. Na época da pornochanchada, a única maneira de concorrer com os filmes estrangeiros era por meio do apelo erótico.

Ocorre que, atualmente, o cinema nacional está dando uma guinada na qualidade de suas produções. A arte imita a vida, e na vida as pessoas fazem sexo e falam palavrão. Qual a resposta normalmente dada a uma topada ou a uma notícia drástica? Quais as expressões que permeiam a conversa dentro de uma boca de fumo, ou entre amigos de colégio? E quem após o coito, sai da cama cobrindo as partes pudendas com o lençol? A forma como o sexo é mostrado e como os palavrões são explorados é que definirá se o filme é ou não de bom gosto. E esses artifícios nunca foram mérito apenas do cinema brasileiro; filmes conceituados de todo o mundo também os usam em larga escala. Apenas produções comerciais preferem evitar cenas do tipo para aumentar a classificação indicativa, e consequentemente, a bilheteria.

“Estômago” soube mostrar o sexo e a nudez com humor e beleza. Quanto aos palavrões, há de se admitir, existe um exagero. Não por motivos moralistas, já que o palavrão pertence ao nosso vocabulário coloquial, e certos sentimentos, aliados à interpretação do ator, só podem ser precisamente transmitidos, por exemplo, mediante a famosa esculhambação à mãe dos outros. Mas ninguém fala tanto palavrão como em algumas partes do filme, e isso às vezes compromete a naturalidade do diálogo. No entanto, desconsiderando o excesso, é uma película que vale a pena se ter guardada na estante.

Raimundo Nonato (João Miguel) era uma presa fácil. Recém chegado na cidade de São Paulo, sem lenço nem documento, foi submetido passivamente a um trabalho quase escravo por conta de uma dívida contraída quando não pagara as coxinhas que comera numa lanchonete. O filme mostra alternadamente o ingresso do personagem em uma penitenciária, em plano futuro, por razões desconhecidas de início. Dentro da cela, passa a dormir no chão, em área desprivilegiada, e a obedecer aos comandos de Bujiú (Babu Santana), o preso manda-chuva do recinto.

O poder é uma situação de influência sobre pessoas. Ele se manifesta com o auxílio dos mais diversos instrumentos. A partir de suas habilidades culinárias, Nonato consegue, mesmo que algumas vezes de forma despretensiosa, experimentar o poder. Sua paixão, a prostituta Íria (Fabiula Nascimento), acabava disponibilizando-lhe o corpo unicamente para provar a boa comida que ele cozinhava. Dentro da cadeia, Nonato galgava patentes mais altas na hierarquia dos presos de sua cela em função do talento gastronômico que ostentava. Durante todo o filme, o espectador se questiona porque Nonato fora preso. A resposta a essa pergunta é surpreendente e macabra, e no final de tudo, podemos verificar que a vontade de comer e o instinto de sobrevivência podem transformar a presa fácil num predador voraz.

 

FILME PARA SE QUEIMAR – DOM (2003)

Filme de Moacyr Góes baseado no romance "Dom Casmurro"

 

Como alguém tem a audácia de fazer uma coisa dessas com um dos maiores romances da literatura brasileira? Bom, pra quem não sabe, “Dom (2003)”, filme dirigido por Moacyr Góes, foi baseado no Livro Dom Casmurro, do cultuado escritor Machado de Assis, que é considerado por muitos, o maior nome da literatura brasileira. Resumindo, o filme conta a história de Bento (Marcos Palmeira), que recebe esse nome dos pais, em homenagem ao personagem do livro já mencionado. Certo dia encontra-se com um amigo de faculdade que já não via há anos, e por consequência reencontra Ana (Maria Fernanda Cândido), sua amiga de infância que ele insistia em chamar de Capitu (personagem de Dom Casmurro). É aí que sua cabeça pira, e ele começa a acreditar que sua vida é um tipo de roteiro a ser seguido de acordo com o livro. E o pior (mas engraçado), é que ele fica piradinho mesmo.

Nada contra adaptar uma grande obra, mas que fizesse direito. O filme é repleto de erros grotescos, falhas de roteiro, a montagem é horrível e as atuações; não vou nem falar. Talvez o melhor ator do filme seja o menino que interpreta Joaquim, o filho de Bento e Ana, que tem dois anos. Mas seria pedir muito do elenco atuar bem, com aquele roteiro e diálogos que mais parecem conversa de criança. Ainda bem que Machado de Assis não está vivo para ver o que fizeram com sua história.

Pelo menos, com toda essa enxurrada de erros e falhas, o filme se torna engraçado, e não é pouco não. Primeiro que os diálogos e parte da trilha sonora foram importados do telecurso 2000, e você fica naquele clima de aula. De repente você, sai do ambiente de vídeoaula e mergulha direto em uma sensação de estar assistindo a um filme do Cine Privê, com aquelas musiquinhas estranhíssimas que mais parecem de filme de suspense. Dessas que lhe dão a impressão de que o que vem pela frente não é nada bom; que alguém vai morrer, contorcer o pescoço, ou até que Jason vai aparecer esquartejando todo mundo. Mas o que você vê? Sexo. O tempo inteiro. Se por algum infortúnio você resolver assistir a esse filme, pelo menos já sabe o que vai acontecer quando ouvir uma música estranha. Ou é sexo, ou vídeoaula.  Então concluímos que o filme é uma mistura de telecurso 2000 e cine privê.

Alguém já viu alguma pessoa, ao terminar um relacionamento, dizer que adora transar com ela pra amenizar a dor? O tal do Bento comete essa desgraça. Em diversas cenas do filme você consegue rir muito, mas não porque o filme possui um teor cômico, e sim porque ficou tão ruim que ninguém se aguenta.

Outra coisa que não dá pra entender é o fato de o destino de Bento ser tão forte, que fez desaparecer o misterioso namorado de Ana. Ninguém viu o cara, e também nem sabe onde ele foi parar. Porque, quando Bento e Ana se reencontram, os dois estão em um relacionamento; sentem uma forte atração e querem a todo custo ficar juntos; Bento termina seu namoro de três anos (mas não o culpem gente, ele amenizou a dor da pobre mulher dizendo que adorava transar com ela), mas Ana nem sequer avisa ao seu pobre namorado. Ele sumiu, sem nem ter aparecido em cena. Vai entender.

Enfim, não dá pra citar tudo de tragicômico que o filme traz (são realmente MUITAS coisas), só assistindo mesmo. Ainda assim não aconselhamos. Existem outras coisas melhores que fazem rir bem mais (e o pior é que o filme nem foi feito para fazer rir).

PS1: A única coisa que se aproveita no filme é um cartaz de “Cidadão Kane (1941)” que aparece aos 34 minutos.

PS2: Se você for leitor fanático de Machado, por favor, não assista.

PS3: Precisava aparecer o cara (Marcos Palmeira) pelado?

 

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Equipe Cinemafia

5 respostas para MAIO (BRASIL)

  1. Filipe Ferraz disse:

    Haha!!!
    “Dom” realmente deve ser rir pra não chorar…

    Pelo menos já fica o alerta: “Dom” passando na televisão?? Desligue-a!!!!

  2. ezequiel neto disse:

    é o famoso “dom” brasileiro na arte de fazer cinema, péssimas adaptações; sempre pecando com o grande Machado.
    parabéns ae pelo blog, curti. abraço

  3. Kerolinne Barboza disse:

    Primeiro quero parabenizá-los pela excelente crítica, escrevem muito bem! ^^
    Achei legal a idéia de filmes nacionais, tendo em vista a pouca importância que damos ao nosso cinema.
    Não assiti a nenhum dos filmes indicados acima, mas após a leitura da crítica ao “Estômago” fiquei com “fome de assisti”, ahsuhaushau.

    Bom trabalho bro! xerooo ;*

  4. Johnny disse:

    depois dessa, eu perdi totalemnte o interesse pelo filme.

  5. […] qual a diferença entre o filme pornográfico e o filme artístico com cenas de sexo. Já escrevi (neste post)o que penso sobre nudez e sexo no […]

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