Biutiful (2010)

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Bom pessoal. Sou novo aqui nessa mafia “robin-hoodiana” do cinema. Espero poder contribuir positivamente com a equipe e com os leitores, claro. Farei o máximo para produzir bons textos sobre os bons filmes que a indústria-mor não deu cartaz. Aqui, sim, dá-se o espaço para o cartaz dessas obras. Peço paciência e abertura para que se acostumem ao meu estilo. Vamos lá.

Segundo Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. Ele usava a tragédia grega, como “Édipo Rei”, para causar  nos espectadores da peça um alívio de suas condições devido ao horror imerecido sofrido pelo herói épico. Com Biutiful, Alejandro González Iñarritu constrói um Édipo moderno e não menos castigado. Assistir a esse longa perturbador, com o agravante de ser uma ficção e vida real, nos faz refletir acerca disso e a catarse acontece inevitavelmente.

Biutiful (e não beautiful)… Abrasileirando: bunito (e não bonito). Sem querer duvidar da inteligência de ninguém para compreender tal erro de grafia, mas é importante enfatizar o nome do filme não só pelo fato de a escrita errônea revelar uma denuncia social disfarçada, mas principalmente por conseguir definir e mostrar um novo conceito de beleza abordado pelo vanguardismo do diretor. O pôster, diga-se de passagem, é o retrato perfeito do longa: Bardem não é bem o típico galã hollywoodiano.

Uxbal (o premiado Javier Bardem) é o pai que Ana e Mateo precisam. Com ausência da ex-esposa bipolar Marambra (Maricel Álvarez), um emprego ilegal e um câncer terminal, nosso herói faz de tudo, seja fazendo bicos como médium ou com a pirataria de produtos, para deixar uma garantia póstuma aos seus filhos. Sempre tenso e triste, é complicado achar beleza em Biutiful. Mas há. Nas cenas à mesa, por exemplo, Uxbal consegue em meio à escassez de tranquilidade e variedade de alimentos, oferecer um banquete de fantasia aos filhos e arrancar deles sorrisos satisfeitos. Nessa hora, pude sentir uma leve analogia, obviamente não intencional, com o mundo fantástico construído por Roberto Benigni em A vida é bela.

O drama é mesmo muito complexo e dinâmico – Iñarritu abusou do cubismo cinematográfico. Cada personagem ali representado, embora o foco do filme tenha sido quase todo sobre o personagem de Bardem (e ele consegue carregar esse fardo muito bem), tem sua esfericidade. O misticismo cuidadosamente abordado no filme também comprova tal complexidade e, neste aspecto, o longa traz até mesmo um pouco de terror surpreendente.

Biutiful foi indicado ao Oscar na categoria prêmio de consolação aos filmes bárbaros, ou seja, melhor filme de língua estrangeira. Apesar do pseudo-favoritismo, quem levou o prêmio, sem surpresas, foi o longa dinamarquês Em um mundo melhor.  Javier Bardem mais uma vez não ficou de fora da premiação e foi indicado na categoria de melhor ator. Mas dessa vez ele não levou… mas leva consigo Cannes, Goya e Penélope Cruz, quer melhor? Eu prefiro!

Então, vale à pena assistir? Com certeza. Principalmente pelo fato de estarmos acostumados e acomodados com o cinema que nos mostra somente a “realidade” que queremos ver. O filme faz mesmo jus ao seu nome. Não só por defender que o belo escrito de maneira errada necessariamente torna-se feio. Mas por nos mostrar que a vida não é fácil e nem sempre bela, mas depende de nós torná-la “biutiful”.

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Ezequiel Fernandes

 

 

14 respostas para Biutiful (2010)

  1. Ezequiel Fernandes disse:

    Quem diria! E eu que nunca imaginava em sair da posição de leitor, haha. Mas agradeço à equipe, da qual orgulhosamente faço parte agora, pela oportunidade. Espero agradar a todos. Abração e curtam!

  2. Lorena disse:

    Parabéns, ezequiel. Excelente publicação. Estou ansiosa para ver o filme agora. Obrigada. beijos

  3. Maria Luisa disse:

    Eu vi o filme e não gostei muito. Mas vendo por esse lado ele é “biutiful” mesmo. Parabéns, o texto ficou muito legal!!

  4. Ezequiel Fernandes disse:

    Valeu, galera! Dêem suas opiniões e me ajudem a ajudar vocês. Abração

  5. Sofia disse:

    Estou persuadida a ver este filme. Obrigada!

  6. Júlia disse:

    Ótimo texto. Quero ver o filme agora!!!

  7. J. Luca disse:

    Meu amigo, excelente crítica. Depois de lê-la fiquei com vontade de assistir este filme. Achei sua abordagem muito bacana e original. Parabéns novamente.

    Se possível, visite meu blog:http://midnightdrivein.blogspot.com/

  8. Gabriel Neves disse:

    Putz, acabo de descobrir o Cinemafia e já encontro esse ótimo texto de Biutiful. Gostei bastante do filme, como você bem falou, retrata bem um lado ‘biutiful’ que está presente afetando a tudo, mas o mundo insiste em ignorar. E Javier Bardem está em ótima forma aqui, com uma força incrível.
    Já tratei de linkar o blog no meu, abraços.

  9. Sabrinna disse:

    Muito bom, parabéns!

  10. mega excelente filme. assisti e fiquei perplexo. maravilhoso, encantador, magnífico, sublime….e biutiful.

  11. […] Em quanto aparece um post sobre cinema! E trata do filme Biutiful, no blog Cinemafia. Até agora, sinceramente, o post que mais me […]

  12. bruno knott disse:

    Muito boa sua análise. O paralelo com Édipo-Rei foi ótimo.

    Gostei bastante de “Bunito”, mas devo dizer que os momentos de beleza que encontrei foram bem poucos, basicamente só esses que você citou mesmo, o resto é sofrimento atrás de sofrimento. Mesmo assim, achei tudo FASCINANTE.

    Abraços!

  13. […] texto anterior, eu falei do inovador padrão de beleza de Iñarritu. Dez anos antes, estreando no cinema, o […]

  14. Thanks to my father who stated to me regarding this web site, this blog is genuinely awesome.

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