Persépolis (2007)

Persépolis é um filme político e intimista. Político porque conta, quase de maneira pedagógica, mas nem por isso desinteressante, como se deu a revolução no Irã, com a queda do monarca Xá e a subseqüente ascensão da nova República islâmica, abordando os desdobramentos cotidianos deste processo. É intimista porque retrata a vida de uma personagem em desajuste com sua pátria mãe, com o resto do mundo na condição de estrangeira, consigo mesma no papel de ser humano em evolução.

A iraniana Marjane Satrapi decidiu contar a história de sua vida de forma pouco convencional: através de quadrinhos. A publicação de sua autobiografia, Persépolis, fez sucesso no mundo inteiro e acabou sendo adaptada para o cinema, em produção francesa/estadunidense, como um longa-metragem de animação em 2007. A animação é predominantemente preta e branca, ficando colorida apenas nas raras cenas que retratam acontecimentos presentes.

Hoje, o Irã é um Estado regido por preceitos mulçumanos. Dentre outras restrições, os iranianos não podem consumir bebidas alcoólicas, ouvir música ocidental, cultivar um relacionamento amoroso antes do casamento, e as mulheres são obrigadas a usar véu ou burca em público. Mas nem sempre foi assim. Antes da revolução, as pessoas estavam livres de todas essas amarras sociais, apesar de o monarca Xá ser um déspota intolerante à oposição política, perseguidor de seus adversários. Marjane alcançou essa época durante sua infância.

Veio a revolução que derrubou a monarquia e, como toda revolução romântica, prometeu mundos e fundos ao povo. Porém, assim como os porcos do livro “A revolução dos bichos”, detendo o poder, os revoltosos passaram a ser mais opressores que seu antecessor. O filme não faz referências ao livro acima citado, a comparação é minha, no entanto, mesmo sendo uma crítica à revolução Russa, esta obra de George Orwell é uma metáfora sempre válida para ilustrar mecanismos de diversos modelos tirânicos já conhecidos pela história.

Encontramos uma parcela do Irã que transgride a opressão islâmica. O regime impõe duras limitações, mas o povo dá um jeito e consegue manter uma vida social secreta, regada a música ocidental, inserida no país clandestinamente, e bebidas alcoólicas. Constatamos que a cultura POP está enraizada no país, longe dos olhos da polícia. Na adolescência, por exemplo, Marjane batia cabeça ouvindo Iron Maiden dentro de casa.

Não precisei recorrer aos livros, nem à Wikipédia para conhecer um pouco do Irã. Assistir Persépolis foi o suficiente para que eu me familiarizasse com esse universo longínquo. Contudo, o filme não se detém aos aspectos políticos do país, eles são o cenário da vida de Marjane em sua busca pela tão sonhada e piegas felicidade.

Marjane pertence a uma família de intelectuais de classe média, todos conscientes do contexto político no qual estão inseridos. É curioso como os personagens da família são fortes e seguros no tocante a suas convicções. Marjane cresce em um lar esclarecido e se destaca das outras crianças, muitas vezes bitoladas pelos ideais do regime. Por conta da guerra, os pais de Marjane consideram a sua permanência no Irã um risco e a enviam para a Áustria. Lá ela come o pão que o diabo amassou e retorna. O filme mostra uma realidade difícil, mas também é uma comédia. Marjane sofre desilusões amorosas, capota algumas vezes no caminho e, mesmo em meio a vivências dramáticas, damos risada de sua situação.

Persépolis não tem fim. Terminamos de assistir o filme sabendo que a história continua. Sabendo que Marjane segue sua saga solitária como estrangeira no Irã, iraniana no mundo, dona de seu próprio destino.

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Marcelo Cardins

3 respostas para Persépolis (2007)

  1. Baixar Filme disse:

    Adoro este blog, só acho coisas interessantes por aqui, continuem assim.

  2. Kerolinne disse:

    Eu já vi esse filme!! mto legal mesmo, assisti por acaso, tava passando na tv e resolvi vê, tempo altamente bem gasto ;}

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