Barton Fink (1991)

Creio que todos vocês conheçam os irmãos Coen. A dupla faz parte do rol de cineastas que não largaram o cinema/arte e sempre aparecem surpreendendo com suas novas produções. Certamente a maioria já viu muitos de seus filmes, mas é em “Barton Fink” que, a meu ver, eles nos entregam aquilo que de mais profundo poderia se extrair de suas mentes.

O filme é um banho de metalinguagem. Conta a história de um roteirista que consegue se consolidar na Broadway e logo é contratado por um estúdio de Hollywood pra escrever roteiros de filmes.  Chegando lá ele se depara com um sistema totalmente controlador, que ofusca a sua inspiração, gerando assim um bloqueio criativo que não lhe permite produzir.

Vou parar por aqui e não contar mais nenhum detalhe da história para que vocês possam apreciá-la em sua pureza, mas pretendo apenas fazer algumas observações sobre o filme. A narrativa dos Coen é brilhante e transmite com clareza o desespero de Barton por não conseguir criar, ao mesmo tempo em que mostra sua insatisfação em ter que se prender a diretrizes ditadas por um “quartel general” de Hollywood.

Não tenho nem o que falar da parte técnica. A direção de arte fez um trabalho fabuloso (acho que nunca usei essa palavra, mas nesse caso foi necessário), e a fotografia nem se fala, juntas retratando com perfeição o quê de meados do século 20 que o filme traz. Sendo o grande vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e concorrendo em três categorias no Oscar, “Barton Fink” é meio que pouco conhecido por essa incipiente massa de cinéfilos que começa a se interessar por cinema assistindo a nova levada de diretores que pretendem retornar aos belos padrões artísticos das telinhas.

Não posso esquecer de citar as ótimas atuações de John Turturro, John Goodman e Michael Lerner (indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante), que foram essenciais na comicidade dos diálogos, o que, se tratando dos irmãos Coen, já são repletos de humor negro e autenticidade.

Resumindo, “Barton Fink” é um filme pra quem gosta de cinema. Daí você se pergunta: “mas quem não gosta?”. É aí que se encontra a questão. Muitos apenas acham que gostam, mas gostar de ver filmes não é a mesma coisa que gostar de cinema. Cinema é muito mais que um mero entretenimento. Cinema é poder ir além do que as palavras dizem, ou as imagens transmitem. É viver, nem que seja por alguns minutos, o que você não pode presenciar. É sentir aquilo que está longe do seu alcance. É captar uma mensagem carregada de valores, das mais variadas formas. Isto é Cinema. Arte.

Sempre existiram, no mundo das artes, aqueles que decidem viver por amor àquilo que fazem, simplesmente porque é na sua obra que eles depositam tudo aquilo que está embutido em seu interior e que não conseguem expressar de outra maneira. Mas não é apenas isso que completa um artista. O que acaba deixando o trabalho deles totalmente gratificante é saber que aquela obra atingiu alguém com a sua mensagem. E com o cinema não é diferente.

Infelizmente, muitos realizadores se entregam ao mundo do cinema comercial e passam a produzir os famosos blockbusters, com o único intuito de bater as bilheterias e fazer seu filme valer milhões. Esquecem que seu verdadeiro valor é depositado no momento do seu feitio e não na hora de contar quantos zeros existem depois do número arrecadado.

“Barton Fink” é uma porrada nesse grande grupo que faz “cinema” para agradar uma gigante parcela da população e levar boladas de dinheiro. Veio para mostrar que cinema de verdade pode ser feito, e bem apreciado. Esse filme é do início da década de noventa, e até hoje a dupla de Minnesota nos presenteia com uma obra de arte atrás da outra, (salvo raras exceções), e vencendo premiações e festivais pelo mundo inteiro. Que nós busquemos sempre conhecer mais, para não ficarmos expostos a qualquer coisa que nos jogam na frente.

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Lincoln Ferdinand

Uma resposta para Barton Fink (1991)

  1. Gabriel Neves disse:

    Bacana. Ótimo texto, como todos aqui do Cinemafia, gostei quando você faz uma comparação entre gostar de cinema e ver filmes. E os Coen nunca me decepcionaram, não deve ser esse que vai acabar com a ótima filmografia deles.
    Abração.

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