Amarelo Manga (2002)

“… o amarelo das doenças,

do chapéu envelhecido

das coisas hepáticas e pulsantes.

 Não é um amarelo ouro, das riquezas,

 mas um amarelo pálido,

um amarelo manga …”

 

Todo bom cinéfilo tem seu padrinho. Seja ele um filme, um diretor, familiar ou um amigo (não descarto a possibilidade de existirem os que nascem com bom gosto). Mas, de fato, algo acontece para que seus olhos sejam abertos para o cinema de qualidade. No meu caso foi uma amiga: Lara, uma goiana de alma nordestina. Lembro-me a primeira vez que fui a sua casa e li a seguinte frase – escrita a canetão – no puff de seu quarto: “O ser humano é estômago e sexo”. Perguntei a ela de onde era essa frase e ela respondeu, já recomendando, que era do filme Amarelo Manga. Ela tem muito bom gosto e adora o nacional. Na hora, ri. Passando da hora, assisti.

O longa se passa na periferia da grande Recife. Histórias entrelaçadas, mas com certa independência, que mostra, com cuidado, temas como religião, homossexualismo, necrofilia, a vida na classe baixa, mas que, em suma, protagoniza todo e qualquer ser humano numa visão bastante pessimista. A obra mais parece um poema do paraibano Augusto dos Anjos encenado. Pelo que falei parece ser um filme que merece censura 18 anos, mas não chega a tanto.

A parte técnica do filme é boa, mas bem barata visto que é de baixo orçamento (lembrando que isso não é regra), mas convence, pois ela é condizente com o meio em que a trama se insere. Eu não sei se foi intencional ou se é pela influência do título do longa, mas tive a impressão, o tempo todo, da presença de um amarelo meio manga na fotografia e arte do filme. Deve ser intencional, o diretor pernambucano tem seus méritos, muito embora eu ache que ele força a barra às vezes (na cena final, por exemplo). O elenco é bom e os personagens são bem trabalhados, quanto a isso não há do que reclamar.

O longa conta com a presença do ótimo Mateus Nachtergaele que, embora não tenha tanto espaço para brilhar, deixa seu recado. Dira Paes, Leona Cavalli, Chico Díaz e Jonas Bloch também compõem o elenco de coadjuvantes. Pois, vou repetir quantas vezes precisar, que aqui o personagem principal é o ser humano. O que chamou minha atenção mesmo foi o eixo temático/narrativo da obra que nos proporciona alguns momentos poéticos e boas falas (mesmo que de baixo calão) durante seus 103 minutos de duração.

Confesso que a obra em si não é do tipo que me agrada muito. Ainda prefiro aos filmes com menos palavrões (salvo Tropa de Elite 1 e 2) e genitálias cobertas – só sou chato, não é falso moralismo, gente! Mas não posso negar que esse filme aqui merece ser assistido. Estômago e sexo: o ser humano sob as condições impostas pelo meio ou, para os mais pessimistas, como de fato ele é. O diretor pernambucano Cláudio Assis, sem dúvidas, segue a linha de pensamento de Augusto dos Anjos. Mas eu acredito num lado meio rousseauniano; acho que a natureza do homem é boa e a sociedade a corrompe (e tenho minhas crenças que não vêm ao caso agora). O brasileiro, o ser humano numa interessante produção nacional.

Se me permitem, essa é uma homenagem a minha madrinha, Lara. A bença?

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Ezequiel Fernandes

4 respostas para Amarelo Manga (2002)

  1. Lara disse:

    Mar minino, que lindo. Primeiramente, quero agradecer a homenagem, ezeiques. Fiquei muito feliz. Desse jeito faz até parecer que sou importante mesmo. hehehe Que bom que você acatou a sugestão!
    Eu gosto do trabalho do Cláudio Assis.. Elementos da cultura pernambucana estão sempre presentes nos filmes dele.. “Baixio das Bestas” é outro longa dele, tambem muito legal, apesar de mais indigesto, eu diria. Mas isso já é pano pra manga pra outra discussão né..
    Óa, a última vez que assisti ‘amarelo manga’ foi há muito tempo, por volta de 2005 creio. Quando li aqui o que tu escreveu fiquei com uma vontade danada de revê-lo. E foi muito bom, já que, depois de tanto tempo, fiz uma leitura nova, com atenção a alguns aspectos para os quais não havia dado tanta atenção antes. Foi uma ótima oportunidade.
    A realidade da periferia é evidentemente retratada, mas o filme faz um retrato de todo ser humano com um viés existencial pesado (inclusive, um fato interessantissimo é que essas reflexoes existenciais sao trazidas marjoritriamente pelo padre). O fato de que o “ser humano terá obrigatoriamente que ser livre” é bem presente nas reflexoes do padre. É o fardo de existir. A liberdade é uma condenação também. Na primeira vez que o vi, a impressão mais forte que tive é que o filme é um retrato bem cru do cotidiano. Isso permanece. O vermelho sangue, não tão presente como o amarelo manga, mas também evidente. Mas aí que ta. Pessoalmente, eu vejo muita beleza no cru. A realidade sem maquiagem tem mta dor e sofrimento, mas também é bonita. Talvez minha “alma nordestina” fale alto nesse momento, por que eu acho linda a maneira como neguinho leva a vida por lá. Tem uma ginga, um balanço natural, com que as pessoas encaram as coisas. É como todo brasileiro, na verdade… Viver é uma arte. Né nao?!
    A trilha sonora é muito legal tb, feita pela galera da nação zumbi.
    Pessoalmente, achei sensacional a maneira como o Nachtergaele interpretou o Dunga. Aliás, o elenco desse filme é realmente mto bom.
    A fotografia desse filme é SENSACIONAL. Não tenho muito o approach técnico, mas os ângulos da câmera são lindos. Ângulos distintos. Formas diferentes de olhar pra realidade.
    Poxa ezeiques querido, brigada pela homenagem. Achei lindo.
    Continue escrevendo ai! Vou acompanhar sempre.
    Besos da sua amiga que lembra sempre de tu, apesar da distância.

    • Larinha, acho que vou botar sua análise no lugar da minha, haha. Mas não esperava menos de você; sua análise é muito porreta! Nossos gostos são um pouco diferentes, mas compatíveis, às vezes. Valeu por tudo e pela “benção”, inclusive. Beijão larinha.

  2. […] Amarelo Manga (2002) (via Cinemafia ) “… o amarelo das doenças, do chapéu envelhecido das coisas hepáticas e pulsantes.  Não é um amarelo ouro, das riquezas,  mas um amarelo pálido, um amarelo manga …”   Todo bom cinéfilo tem seu padrinho. Seja ele um filme, um diretor, familiar ou um amigo (não descarto a possibilidade de existirem os que nascem com bom gosto. Mas, de fato, algo acontece para que seus olhos sejam abertos para o cinema de qualidade. … Leia Mais via Cinemafia […]

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