O Bem Amado (2009)

“O Bem Amado” é um filme baseado na peça de Dias Gomes que já foi série, novela, e por último filme. Apesar de se encontrar inúmeras opiniões afirmando que tanto a série quanto a novela foram muito superiores ao filme, o texto que vem a seguir se aterá apenas a obra cinematográfica. De antemão, já me declaro suspeito pra falar da obra: sou um entusiasta confesso do cinema nacional.

Charles Chaplin bem disse que existem algumas verdades que se dizem brincando.  Ainda no reinado se afirmava que não há nada mais liberal do que um conservador na oposição ou nada mais conservador que um liberal no poder. Hoje já podemos até questionar o que é realmente esquerda e direita, senão um indicativo de direção.

A trama é o relato da fictícia cidade de Sucupira no interior da Bahia, que após a morte do então prefeito, dois candidatos se jogam nas eleições ainda em meio ao velório. De um lado Odorico Paraguaçu, candidato do partido conservador, e do outro Vladimir de Castro, líder do partido revolucionário. Odorico é eleito, e daí pra frente, o enredo se desenrola.

 “O Bem Amado” traz nas suas cenas um bom toque de humor incorporado a uma crítica ácida ao cenário político brasileiro da década de 60, que não é muito diferente do atual. As várias contendas entre o corrupto prefeito Odorico Paraguaçu, um fino criador de neologismos, e o correto contador da prefeitura é uma das várias nuances que dão gosto ao enredo.

– Nosso partido tem direito a 10% de comissão para os gastos de campanha.

– Caixa 2!? Dr. Odorico, isso é totalmente irregular.

– Todo mundo faz. Minha eleição foi caríssima! O senhor quer que eu gaste do meu?

– Mas Odorico isso é dinheiro público, não podemos desviar para eleições.

– Como não!? Sem eleições não há democracia. O senhor é contra a democracia!?

Apesar de toda simpatia que o enredo causa no início, à medida que vão chegando os momentos conclusivos da trama, um certo cansaço se apodera. O fato de não continuar com uma sequência de cenas que desse um andamento linear, termina por tornar repetitivo. É nesse momento que se pode entender porque “O Bem Amado” fez sucesso como série e novela.

Guel Arraes andou bem na crítica que fez a esquerda brasileira. Colocou Tonico Pereira na trama de uma forma que tornou o personagem ímpar em seus trejeitos esquerdistas. O ator conseguiu com folga incorporar em um personagem que traduzisse todo o estereótipo das velhas figuras revolucionárias de esquerda, seja através do discurso fatalista-apocalíptico, na aparência desgastada e mal tratada, bem como através da voz gritante e incômoda.

Parafraseando Odorico Paraguaçu, “O Bem Amado” é uma “obra que entrou para os anais e menstruais do país”.

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Victor Lúcio

Uma resposta para O Bem Amado (2009)

  1. Diverti-me muito com esse filme como poucos filmes nacionais fizeram em muitos anos (talvez só os outros de Guel Arraes tenham efeito semelhante). Falas deliciosas, inteligentes, interpretadas por ótimos atores, numa trama pertinente e engraçada. Visualmente lindo, tecnicamente impecável (montagem, fotografia, trilha sonora), e com um roteiro muito caprichado (como tudo que Arraes já fez).

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