Fonte da Vida (2006)

Darren Aronofsky e a obsessão pela arte de fazer a mesma

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É um pouco recente a ideia que vende a arte como entretenimento. Não sou muito bom com datas, mas em gerações anteriores à nossa, arte era coisa para gente grande (digo: gente capaz de entendê-la; especificamente, para quem a detinha). E isso não mudou totalmente. O que acontece, na verdade, é que o conceito de arte, ao longo do tempo, tornou-se mais amplo, mas indissociável. Abrangência essa que, além de ciência, incluiu o campo do entretenimento; tornando, pois, mais acessível. Para quem busca as duas coisas, hoje, não há lugar melhor do que o cinema para esse fim.

O problema que está atrelado a isso que falei acima, é a produção em massa de filmes que visam puramente entreter. Ou seja, desarte (um cêzinho a mais e temos a palavra “descarte”). Hollywood, embora tenha muitas qualidades, virou o principal veículo dessas tantas besteiras que passam nas telonas e levam consigo, de quebra, a intitulação de obra artística. Mas não, gente. Embora você pague entrada, locação ou compre na vendinha de filmes piratas, esse tipo de filme não é arte. Vou falar então de quem sabe fazê-la.

Desculpe-me, cinéfilo, se você começou a ler esse texto procurando um destrinchamento sobre o filme Fonte da vida (por isso me precavi e pus um subtítulo); mas falarei também um pouco dela. É que, mais importante que o filme em si, é a quebra de paradigmas que um cara chamado Darren Aronofsky sabe fazer – e bem o fez nesse longa. Quem já acompanha o Cinemafia, percebeu que esse que vos escreve é fã dele. E, nesse texto, mais que uma análise, eu quero deixar explicado o porquê dessa obsessão pelo trabalho desse cara. E eu já disse a palavra mágica: obsessão.

Isso é uma coisa que você vai perceber fácil num filme de Aronofsky. Pi, Réquiem para um sonho, Cisne negro, O lutador e, claro, Fonte da Vida. Esses são exemplos de filmes que trazem esse tema (implícita ou explicitamente) e essa é toda a filmografia dele como diretor. Preciso falar mais alguma coisa? Ele é tão obsessivo em fazer arte, que elas (a obsessão e a arte) extrapolam em suas obras e atingem a quem se dispõe facilmente.

Fonte da Vida conta a(s) história(s) do amor. O personagem de Hugh Jackman é um cientista que não só quer, mas precisa encontrar a cura do câncer para salvar a vida de sua esposa, interpretada por Rachel Weisz. E precisa disso porque é o amor dela que o mantém vivo. O que vou contar agora não é fofoca de bastidores: Rachel Weisz, na vera, é esposa do diretor. E é com essa motivação que Aronofsky rompe a linha tênue entre a arte e a vida, e funde esses dois planos num só: a tela que você assiste. Ali tem amor verdadeiro, meus caros.

Simultaneamente ao enredo principal, o filme traz duas histórias secundárias (mas que, na verdade, é a mesma história): uma num passado muito distante e a outra num futuro que chega a ser metafísico; todas elas movidas pelo amor e direcionadas por uma busca obsessiva em encontrar a fonte da vida que não permitirá que o amor morra. Com um visual incrível e psicodélico, para variar, Aronofsky compõe Fonte da Vida. O elenco, já citado, também é ótimo: “Wolverine” mostra uma faceta que não é de costume (muito boa por sinal) e Rachel Weisz… O que dizer? Para mim, é a Capitu machadiana dos cinemas: que belos olhos de ressaca ela possui!

Ao filme cabe várias interpretações, claro. Mas são variações sobre um mesmo tema. Enfim. A obra, de cara, pode parecer ininteligível; estranha ela é mesmo. Mas, se você fizer um esforcinho bem inho, você consegue entender (nem que seja assistindo uma segunda vez) – admirá-la vai ser consequência. E arte de verdade resulta nisso, gente. O entretenimento deve ficar por nossa conta. Mas, na arte de fazer a mesma, tem que haver originalidade, inteligência e amor; muuuuito amor (suspiros).

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Ezequiel Fernandes

Uma resposta para Fonte da Vida (2006)

  1. Gabriel Neves disse:

    É um filme que eu pretendo rever para poder digerir melhor, hehe. Gostei bastante do seu texto, ainda mais de tua comparação entre Rachel Weisz e Capitu. E tenho que concordar contigo, se há um cara que faz cinema e arte atualmente, esse é Darren Aronofsky. Cada filme dele é de um cuidado e de um primor tão grande, impossível não se apaixonar pelo sombrio Pi, pela rapidez de Réquiem Para um Sonho, pelo brutal O Lutador ou pela sensualidade do Cisne Negro, e ainda pela imensidão e o infinito amoroso que é Fonte da Vida.
    Abraços!

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