Os Desafinados (2007)

Música, bossa nova, juventude, saudosismo, amigos, paixões, são ingredientes que juntos sem precisar de muito tempero e com quase nada de sal faz sair coisa boa. Se os cozinheiros dessa mistura forem atores do gabarito de Rodrigo Santoro, Selton Mello, Cláudia Abreu, Ângelo Paes Leme, Alessandra Negrini, pronto: o prato está predestinado a fazer sucesso nos mais variados paladares, digno de entrar no menu dos principais cinema/cozinha existentes pelo país.

Pois é, você deve estar achando que lá vêm bons elogios a “Os Desafinados”. Mesmo com tanto ingrediente bom junto em uma mesma receita, conseguiu-se algo que não dava pra se vislumbrar: um péssimo prato! A imagem que se apresenta é o completo avesso do sabor provado. É como “comer com os olhos”, tanta atração pelas formas, textura, mas uma grande decepção pela essência que vem ao paladar.

A trama começa e passa um bom tempo (quase todo o filme) sem mostrar pra que veio. Não há um ponto central e as ramificações em volta de um enredo, mas um emaranhado de tramas que parecem não coexistir na mesma obra, lutando pela posição de protagonista. Não se sabe se será um romance romântico entre Glória (Cláudia Abreu) e Joaquim (Rodrigo Santoro) que se passa entre um grupo de amigos buscando um lugar ao sol no mundo musical, ou a história de um grupo musical de jovens formado na década de 60 chamado Rio Bossa Cinco e que tentavam levar sua arte pra fora do país. O diretor, Walter Lima Jr. parece ter ficado com a segunda opção, afirmou no Festival de Paulínia: “Fiz um filme sobre brasileiros artistas que sonhavam em levar sua arte para fora do país”. Bem, já dizia o ditado popular: “De boa intenção o inferno está cheio”.

O enredo até começa razoavelmente bem, mas cai brutalmente de ritmo à medida que o tempo passa. A aventura do grupo musical pelos EUA é deixada de lado e o drama pessoal de Glória e Joaquim se transforma no mote principal. De início eles começam a viver uma paixão, em seguida os conflitos regados a ciúmes aparecem após ela ficar sabendo que ele deixou sua mulher no Brasil e sua filha está por nascer. Quer mais clichê que isso? Típica novela das oito!

Lá para os 30 minutos finais (ao todo são 2 horas e 10 minutos), em meio a uma viagem do grupo a Buenos Aires, Joaquim desaparece. Ele é preso e não reaparece mais, o grupo volta ao Brasil sem ele. Daí pra frente, a trama consuma o que se prenunciava até então: o filme está terminando e você descobre que dentro da história você foi do nada a lugar algum.

Como se não bastasse tantos pecados em um enredo só, há cenas caídas de pára-quedas a todo o momento. Se a montagem da obra existe para dar sentido às nuances do enredo, “Os Desafinados” derrapa em vários momentos, colocando cenas que fazem o espectador perceber que servem apenas como justificativas pra outros momentos que aconteceram ou estão por acontecer.

Não adianta apenas bons ingredientes sem uma boa combinação entre eles. Há certos temperos que entram na comida ainda crua, outros que vem dar mais sabor depois de pronta e aqueles que são servidos como acompanhamento. Tudo isso sem descuidar do tempo de fogo a que o prato é submetido, e qual panela tudo isso foi colocado. Isso é “Os Desafinados”, bons ingrediente e um péssimo prato.

________________________________

Victor Lúcio

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: