Os Desafinados (2007)

31/08/2011

Música, bossa nova, juventude, saudosismo, amigos, paixões, são ingredientes que juntos sem precisar de muito tempero e com quase nada de sal faz sair coisa boa. Se os cozinheiros dessa mistura forem atores do gabarito de Rodrigo Santoro, Selton Mello, Cláudia Abreu, Ângelo Paes Leme, Alessandra Negrini, pronto: o prato está predestinado a fazer sucesso nos mais variados paladares, digno de entrar no menu dos principais cinema/cozinha existentes pelo país.

Pois é, você deve estar achando que lá vêm bons elogios a “Os Desafinados”. Mesmo com tanto ingrediente bom junto em uma mesma receita, conseguiu-se algo que não dava pra se vislumbrar: um péssimo prato! A imagem que se apresenta é o completo avesso do sabor provado. É como “comer com os olhos”, tanta atração pelas formas, textura, mas uma grande decepção pela essência que vem ao paladar.

A trama começa e passa um bom tempo (quase todo o filme) sem mostrar pra que veio. Não há um ponto central e as ramificações em volta de um enredo, mas um emaranhado de tramas que parecem não coexistir na mesma obra, lutando pela posição de protagonista. Não se sabe se será um romance romântico entre Glória (Cláudia Abreu) e Joaquim (Rodrigo Santoro) que se passa entre um grupo de amigos buscando um lugar ao sol no mundo musical, ou a história de um grupo musical de jovens formado na década de 60 chamado Rio Bossa Cinco e que tentavam levar sua arte pra fora do país. O diretor, Walter Lima Jr. parece ter ficado com a segunda opção, afirmou no Festival de Paulínia: “Fiz um filme sobre brasileiros artistas que sonhavam em levar sua arte para fora do país”. Bem, já dizia o ditado popular: “De boa intenção o inferno está cheio”.

O enredo até começa razoavelmente bem, mas cai brutalmente de ritmo à medida que o tempo passa. A aventura do grupo musical pelos EUA é deixada de lado e o drama pessoal de Glória e Joaquim se transforma no mote principal. De início eles começam a viver uma paixão, em seguida os conflitos regados a ciúmes aparecem após ela ficar sabendo que ele deixou sua mulher no Brasil e sua filha está por nascer. Quer mais clichê que isso? Típica novela das oito!

Lá para os 30 minutos finais (ao todo são 2 horas e 10 minutos), em meio a uma viagem do grupo a Buenos Aires, Joaquim desaparece. Ele é preso e não reaparece mais, o grupo volta ao Brasil sem ele. Daí pra frente, a trama consuma o que se prenunciava até então: o filme está terminando e você descobre que dentro da história você foi do nada a lugar algum.

Como se não bastasse tantos pecados em um enredo só, há cenas caídas de pára-quedas a todo o momento. Se a montagem da obra existe para dar sentido às nuances do enredo, “Os Desafinados” derrapa em vários momentos, colocando cenas que fazem o espectador perceber que servem apenas como justificativas pra outros momentos que aconteceram ou estão por acontecer.

Não adianta apenas bons ingredientes sem uma boa combinação entre eles. Há certos temperos que entram na comida ainda crua, outros que vem dar mais sabor depois de pronta e aqueles que são servidos como acompanhamento. Tudo isso sem descuidar do tempo de fogo a que o prato é submetido, e qual panela tudo isso foi colocado. Isso é “Os Desafinados”, bons ingrediente e um péssimo prato.

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Victor Lúcio


Capitalismo: Uma História de Amor (2009)

16/08/2011

Documentários me causam certo fascínio. A possibilidade de se contar algo sem o auxílio de “atores” e cenários, apenas jogando com uma boa seleção de imagens e um bom roteiro enche meus olhos e prende a minha atenção como ninguém.

E se esse documentário tiver mais de 2 horas de duração? A possibilidade de se tornar enfadonho é grande, e se a temática principal for capitalismo então… Mas esses não são, definitivamente, atributos imputáveis a Capitalismo: Uma História de Amor.

Apesar de ser um admirador confesso das suas obras, é preciso admitir: Michael Moore mais uma vez foi bem, muito bem. Pra quem já conhece Farenheit: 11 de setembro, Tiros em columbine, Sicko, não vou precisar dizer muita coisa pra provar que mais uma vez ele acertou na mão. Há quem o chame de pretensioso e manipulador, mas é o risco inerente à arte de ser comunicador, a linha que separa informação e manipulação é muito tênue.

Se você acha que lá vem mais um daqueles papos chatos a respeito do “sistema capitalista”, se engana. O mote da obra é desmistificar certos engodos criados e mostrar o quanto a sociedade estadunidense é subserviente ao dinheiro das grandes corporações e refém de megaoperações no mercado financeiro que quando dão erradas, o contribuinte paga sem mesmo saber. O que pra mim pode ser resumido em uma frase de Fábio Konder Comparato “o capitalismo se sustenta sobre a sedução e a corrupção”.

Falar do tema não é nada fácil. O risco do discurso se tornar apocalíptico é iminente, as chances de se fazer uma abordagem rasa assedia o roteiro a todo momento. Dos muitos que se aventuram, poucos conseguem passar à margem dessas situações e ainda tornar o assunto digerível pelo público. Um assunto pesado, denso e polêmico, se torna leve e provocador sem precisar caminhar no senso comum e na superficialidade.

A certa altura diálogos como esse acontecem:

– Você sabe o que é um derivativo?

– É uma aposta secundária num ativo subjacente. Pode ter uma ação e uma opção sobre ela, e essa opção sobre ela lhe permite o privilégio, mas não a obrigação de comprar ou vender. Como explicar? Você tem a opção de decidir se quer ou não correr esse risco. Vou explicar de outra forma: o preço do derivativo é baseado no preço de outra coisa, é como uma equação de 2º grau.”

– Mas há um explicação bem melhor e mais clara: derivativos são nada mais que complicados sistemas de aposta.   

Provocador por essência e com montagem e plasticidade digna de grandes filmes, a obra tem capacidade para prender a atenção até de quem não tem interesse algum pelo tema, indo além do que normalmente se encontra em filmes do gênero.

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Victor Lúcio


Cela 211 (2009)

02/08/2011

Os dilemas e circunstâncias que a vida nos coloca de frente são sempre momentos de grandes paradoxos que nossa mente tenta resolver e encontrar uma saída, e essa saída que encontramos, muitas vezes, nos surpreende. Quem é que já não se pegou pensando, concordando e até fazendo algo que até bem pouco tempo atrás era repugnante ou no mínimo impensável? De um simples “se”, passamos a um “talvez”, e terminamos em um “com certeza” rapidamente. Já dizia Don Corleone que não fazia diferença o que um homem faz para viver, se ele não se dedica à família, nunca será um homem de verdade.

Cela 211 usa de um meio não convencional para nos levar a refletir sobre esses dilemas: uma rebelião em um presídio. Afinal, será que existem pessoas de lados totalmente opostos? Será que muita coisa distancia um carcereiro de um preso?

De nova profissão, Juan Oliver resolve ir ao seu futuro local de trabalho um dia antes para conhecer as instalações. Ainda nesse fatídico dia de conhecimento, devido a um incidente “se transforma em mais um detento”, o instinto de sobrevivência fala mais forte e ele é obrigado a se misturar com os demais e passa a liderar com Malamadre a rebelião a que se dá cabo. Daí pra frente ele é obrigado a fazer papéis distintos dentro da prisão: para os presos, mais um rebelde, e para a direção do presídio um “espião” que caiu lá por acaso, até chegar ao ápice da trama, o momento em que não consegue mais conciliar os dois lados.

A produção espanhola é um filme que mostra rapidamente pra que veio, e não deixa o enredo esfriar durante o percurso. Pra quem espera um filme de ação, nele você encontrará muito pouco do gênero. A riqueza da obra está nos ótimos diálogos responsáveis por manipular momentos de conflito, tensão e adrenalina dentro de um ambiente nada convencional ou amistoso de uma penitenciária. Apesar de se passar dentro desse contexto, o filme não cai na vala comum dos filmes do gênero, exatamente por não se ater às problemáticas naturais do ambiente.

Lembrando as palavras do nosso colega cinemafioso Lincoln Ferdinand, Hollywood faz remakes de filmes estrangeiros por um motivo simples: estadunidenses têm preguiça de ler legenda. Premiado com 8 prêmios Goya, hollywood já planeja um remake do longa para esse ano.

Pois é, considero que Raul Seixas foi cristalinamente correto quando disse que preferia ser uma metamorfose ambulante do que ter uma velha opinião formada sobre tudo. Talvez ele imaginasse que a linha que nos separa de alguma coisa é muito tênue, como de fato é, e Cela 211 consegue com maestria ímpar nos colocar dentro desse jogo.

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Victor Lúcio


O Bem Amado (2009)

19/07/2011

“O Bem Amado” é um filme baseado na peça de Dias Gomes que já foi série, novela, e por último filme. Apesar de se encontrar inúmeras opiniões afirmando que tanto a série quanto a novela foram muito superiores ao filme, o texto que vem a seguir se aterá apenas a obra cinematográfica. De antemão, já me declaro suspeito pra falar da obra: sou um entusiasta confesso do cinema nacional.

Charles Chaplin bem disse que existem algumas verdades que se dizem brincando.  Ainda no reinado se afirmava que não há nada mais liberal do que um conservador na oposição ou nada mais conservador que um liberal no poder. Hoje já podemos até questionar o que é realmente esquerda e direita, senão um indicativo de direção.

A trama é o relato da fictícia cidade de Sucupira no interior da Bahia, que após a morte do então prefeito, dois candidatos se jogam nas eleições ainda em meio ao velório. De um lado Odorico Paraguaçu, candidato do partido conservador, e do outro Vladimir de Castro, líder do partido revolucionário. Odorico é eleito, e daí pra frente, o enredo se desenrola.

 “O Bem Amado” traz nas suas cenas um bom toque de humor incorporado a uma crítica ácida ao cenário político brasileiro da década de 60, que não é muito diferente do atual. As várias contendas entre o corrupto prefeito Odorico Paraguaçu, um fino criador de neologismos, e o correto contador da prefeitura é uma das várias nuances que dão gosto ao enredo.

– Nosso partido tem direito a 10% de comissão para os gastos de campanha.

– Caixa 2!? Dr. Odorico, isso é totalmente irregular.

– Todo mundo faz. Minha eleição foi caríssima! O senhor quer que eu gaste do meu?

– Mas Odorico isso é dinheiro público, não podemos desviar para eleições.

– Como não!? Sem eleições não há democracia. O senhor é contra a democracia!?

Apesar de toda simpatia que o enredo causa no início, à medida que vão chegando os momentos conclusivos da trama, um certo cansaço se apodera. O fato de não continuar com uma sequência de cenas que desse um andamento linear, termina por tornar repetitivo. É nesse momento que se pode entender porque “O Bem Amado” fez sucesso como série e novela.

Guel Arraes andou bem na crítica que fez a esquerda brasileira. Colocou Tonico Pereira na trama de uma forma que tornou o personagem ímpar em seus trejeitos esquerdistas. O ator conseguiu com folga incorporar em um personagem que traduzisse todo o estereótipo das velhas figuras revolucionárias de esquerda, seja através do discurso fatalista-apocalíptico, na aparência desgastada e mal tratada, bem como através da voz gritante e incômoda.

Parafraseando Odorico Paraguaçu, “O Bem Amado” é uma “obra que entrou para os anais e menstruais do país”.

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Victor Lúcio


The Coconut Revolution (2001)

05/07/2011

Olá pessoal. Sou o mais novo aspirante a mafioso que aparece por essas terras já habitadas por outros mafiosos bem mais impiedosos e experts no mundo do cinema. De crítico de cinema tenho muito pouco, mas de inebriado pela 7ª arte tenho muito. Então, estaremos sempre nos encontrando por aqui nas segundas. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Ser “verde”, “ecologicamente responsável”, ter “hábitos sustentáveis” e todo esse discurso está na moda. Quantas vezes você já não leu ou ouviu – o que deixaremos para os nossos netos? Esse vem sendo o mote da vez do noticiário, a plataforma de campanha de partidos e candidatos, o refúgio do já exausto e repetitivo marketing das corporações.

Longe desse falso moralismo ambiental e do papo chato de ambientalistas acostumados a debates em mesas redondas, existe a ilha de Bougainville no arquipélago das Ilhas Salomão. Uma província de aproximadamente 190 mil habitantes no oceano pacífico, teoricamente pertencente ao território de Papua-Nova Guiné. Já foi colônia da Inglaterra, palco de disputa da segunda guerra mundial entre Estados Unidos e Japão, e como se não bastasse, teve parte de suas terras transformadas em deserto por resíduos de cobre e arsênico provenientes da exploração de seus minérios pela maior mineradora do mundo, a britânica Rio Tinto Zinc.

Com esse cenário de desolação a população resolveu reagir de sua forma. Sob a liderança de Francis Ona, em 1989 explodiram os principais pontos de suprimento da empresa, causando um colapso em seu funcionamento. Esse foi o estopim da luta que durou por mais sete anos. Rendeu a liberdade de um povo, mas também rendeu o isolamento territorial sob a mira das armas do exército de Papua-Nova Guiné.

O que torna esse documentário diferente não são o relato de luta ou os problemas deixados pela exploração, ou mesmo a mais nova denúncia que irá derrubar governos ou colocar em xeque o destino da humanidade, mas o fato de contar o que se pode chamar de primeira eco revolução bem sucedida que se tem notícia; é a simplicidade de uma história que passa longe dos holofotes do marketing empresarial; não teve debates, mesas redondas de intelectuais acostumados aos arroubos retóricos.

De forma simples, a população encontrou sua forma de sobreviver. Aquela máxima de que a necessidade é que faz o homem prevaleceu e forçou a criatividade de um povo. A grande sacada que deu nome ao documentário – revolução dos cocos (The coconut revolution), não foi apenas o fato de um povo ter lutado braviamente contra os exploradores de sua terra, ou ter “dado seus pulos”, mas a descoberta do coco como a principal fonte de energia para a ilha. O fruto se tornou uma espécie de MacGyver Bougainvilliense. Virou sabão, óleo, e até combustível automotor.

Apesar da pequena estrada percorrida pelo diretor Dom Rotheroe, o texto apresentado é leve, mas não se torna superficial por isso, consegue com maestria passar a largo de números a respeito do tema, como é comum, sem deixar a desejar em conteúdo, tornando-se um estudo etnográfico em som e imagem pra antropólogo nenhum por defeito; o sentimento, a criatividade e o ceticismo de um povo com o resto do planeta são personificados nas suas cenas sem grandes retoques de imagens.

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Victor Lúcio