50/50

13/04/2012

O que fazer quando tudo o que se tem na vida é 50% de chance de viver?

50/50 conta história de Adam (Joseph Gordon-Levitt) que não bebia, não fumava e não transava (há três meses). Tinha uma vida saudável e não dirigia porque acreditava ser uma prática insegura – as estatísticas confirmavam. Como disse seu amigo Kyle (Seth Rogen), era um velho de 85 anos em boa forma… Mas ele só possuía 27. Descobriu que tinha câncer.

Adam não tinha uma vida ruim, tinha uma namorada bonita, um amigo alto astral e uma mãe redundantemente sufocante (Angelica Houston). É óbvio dizer que a partir da descoberta do câncer sua vida mudou. Quando descobriu o câncer, descobriu também que sua namorada o traiu, que a preocupação excessiva de sua mãe não era tão sufocante assim e que seu amigo era mesmo seu amigo (Ah! Dirigiu também). E pôde perceber tudo isso não só através das próprias ironias da vida, contou também com a ajuda da terapeuta Katherine (Anna Kendrick) por quem se apaixonou.

Vendo a sinopse, o filme não parece ter nada de extraordinário a oferecer; e não tem mesmo. Este é o ponto alto (altíssimo) do filme. O roteiro muito bem dirigido conseguiu captar a simplicidade dos percalços da vida de maneira singular. É um filme agradável, os personagens são ótimos e, jamais, ele força a barra para te fazer chorar, embora trate de um tema que o cinema oportunista usaria as lágrimas da massa para arrecadar bilheteria.

Recomendo urgentemente para quem ainda não assistiu. É um filme que te dá oportunidade de marejar os olhos e soltar boas risadas espontaneamente. Aliás, espontaneidade é a palavra-chave desse filme. Bom roteiro, boa direção e boas atuações. Um drama-comédia que foge dos clichês cinematográficos, mas confirma um clichê da vida: parece mesmo que há males que vêm para o bem.

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Ezequiel Fernandes

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A Garota Ideal (2007)

29/12/2011

O indivíduo introvertido é aquele que se sente mais à vontade em seu mundo, em não ultrapassar o limite – que é ele próprio – que separa o individual e o social. Eu não sei o que os mais entendidos dizem a respeito da introversão, mas acho que existem introvertidos e introvertidos – “o oito e o oitenta”. Eu, Ezequiel, sou oito. Ryan Gosling, em A Garota Ideal, faz o papel de Lars, um introvertido do tipo oitenta.

Lars and the Real Girl (título original), conta a história de um rapaz muuito tímido, que mora na garagem vizinha a seu irmão mais velho e sua cunhada (Emily Mortimer) numa cidade pacata interiorana. Quando Lars anuncia sua namorada, assusta, pois isso não era esperado. Mais inesperado ainda era o fato de Bianca, sua namorada, ser uma boneca sexual inflável – segundo ele, era uma missionária meio dinamarquesa, meio brasileira. A reação de seu irmão e cunhada é de susto, claro; mas visto o grau de situação mental de Lars, deram apoio a ele e pediram ajuda à psicóloga Dagmar (Patricia Clarkson).

Com o desenrolar do originalíssimo roteiro, nos deparamos com a aceitação dos moradores daquela pequena cidade com os inusitados namoro e namorada de Lars e, ao mesmo tempo, a aceitação dele de si mesmo. Bianca, além de quebrar paradigmas (pois todos nós sabemos quais as intenções de se ter uma boneca dessas) de uma cidade pequena e tradicional, serve de alavanque para a vida de Lars. Ryan Gosling foi perfeito para o papel, assim como todo o elenco foi bem escolhido: tudo ficou muito natural e fluido frente a uma premissa tão estranha.

Quando assistimos a esse filme, acabamos notando que Bianca não só serviu como suporte para Lars, como também para nós, para aceitarmos aquela situação. É incrível como o roteiro foi eficiente ao ponto de nos fazer ficar tão apaixonados por ela. No início é meio esquisito, engraçado e até incômodo, mas, aos poucos, tudo isso vira pura comoção e envolvimento. É, com certeza, um filme muito sensível.

A mensagem que eu captei foi a seguinte: todos precisamos de uma Bianca em nossas vidas. Uma situação ou outra nos deixa mais desconfortáveis ou nós mesmos nos sentimos desencaixados nelas; não é necessário introversão exacerbada como a de Lars para tal. Esse filme, além de muito bonito, nos ajuda a conhecer mais a nós mesmos.

Todo mundo tem seu mundo. Todos são introvertidos. Ou vocês nunca pararam para pensar que a própria extroversão é, também uma “Bianca”. O extrovertido precisa sê-lo para se socializar. Então, onde ou de que maneira a sociedade te deixa desconfortável e no que você se apega para vencê-la? Em A Garota Ideal, o apoio é uma boneca inflável. Metáfora fina.

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Ezequiel Fernandes


Ed Wood (1994)

28/11/2011

O talento é algo discutível e anacrônico. Ter muita aptidão e destreza para realizar certos feitos, é ter talento para tal. Engraçado é que o conceito de talento tendeu para o sentido de que, ser talentoso é ser o melhor no que faz atendendo aos padrões majoritários. Dessarte, quem se destaca como o pior no que faz, é tido como “sem talento”. E foi partindo dessa premissa que o diretor Tim Burton, com seu cinema de exceção, faz uma homenagem ao melhor dos piores de todos os tempos na arte de fazer cinema. Um filme que contém metalinguagem já é suficiente para merecer minha atenção.

Ed Wood é um drama-comédia biográfico de Edward Davis Wood Jr, que carrega em sua lápide o epitáfio de “O pior cineasta de todos os tempos” – considerado por muitos críticos. Johnny Depp, mesmo em suas primeiras parcerias com Burton, já estava muito a vontade com o estilo esquisito do diretor. Mas aqui, como de costume, ele não é o destaque máximo do filme, apenas faz parte de todo um elenco porreta – não quis dizer com isso que Depp não estava em boa forma; não, pelo contrário, mas teve o seu brilho dividido.

Ed Wood acreditava no seu talento para fazer cinema, mas sempre foi barrado pelo descrédito dos estúdios e da falta de grana. E seus talentos maiores, acredito eu, era a persistência e, principalmente, a paixão pelo que fazia. Seus roteiros eram desconexos, estranhos; com o pouco material que detinha, aproveitava filmes já rodados e fazia sobreposição de imagens. Era fã de Orson Welles, pois se identificava com a sua capacidade de inovação, e do inesquecível Conde Drácula (Bela Lugosi) que foi interpretado com atuação oscariada de Martin Landau. Estes foram definitivos para dá força a Ed. A verossimilhança de todos os personagens são de dá gosto ao cinéfilo. O longa é mesmo muito bom; tudo funciona.

“Glen or Glenda?” foi o primeiro “sucesso” de Ed mostrado no filme e “Plan 9 From Outer Space” marcou gerações inspirando máscaras de Halloween. Seus filmes tinham um pouco de terror, comédia e erotismo muito típico em filmes “B”. O longa de Burton é uma pequena obra prima do cinema e um dos melhores que assisti do diretor. Ed Wood serve de inspiração a muitos, principalmente, às mentes criativas que estão à frente de seu tempo. Hoje seus filmes são considerados clássicos trashs e, de quebra, virou cult para os admiradores do gênero. Infelizmente, talentos como esses, caem no clichê de serem valorizados somente depois que partem dessa para melhor.

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Ezequiel Fernandes


Um Festival em Cannes (2001)

31/10/2011

Imagino que todo cinéfilo já sonhou em assistir aos grandes eventos do cinema mundial, participar das premiações e, quiçá, levar um troféu para casa. O mundo cinematográfico parece mágico (e é mesmo), mas, de fato, há muito mais trambique, negociações, fachadas do que magia nesse meio – ou talvez tudo isso também faça parte dessa magia. Esse filme aqui mostra um pouco do que está por trás da tela.

O filme se desenrola na cidade francesa de Cannes, cenário de um dos eventos mais importantes do cinema, em plena temporada de premiações. O longa é bem interessante, pois aborda várias facetas: uma atriz com pouca grana que busca seu primeiro trabalho como diretora; um “faz tudo” que tanta ganhar seu espaço nesse mundo na lábia; um produtor comercial hollywoodiano competindo espaço com o cinema independente; uma atriz de 60 anos que tem que decidir entre o papel principal e cachê baixo ou o papel de “mãe” e muitas cifras; um diretor famoso estagnado e ainda uma atriz de teatro que ganhou ótimas críticas no filme do momento de Cannes e que deseja não se ensoberbecer devido o estrelismo que a espera. Achou muito? Ainda há alguns secundários.

Embora pareça um filme bagunçado pelo excesso de informações que tem, o diretor Henry Jaglom conseguiu interligar todas essas facetas de uma forma bem madura, digamos assim. Todas essas personagens compartilham o conflito principal (que é o mundo do cinema) em meio a vários romances, mas sempre lembrando que romance é romance, negócios à parte. Eu nunca tinha ouvido a respeito desse filme, mas gostei de verdade. Gostei muito. Achei original, uma metalinguagem bem feita e bons atores com bons personagens. A obra é bem leve e me convenceu.

De fato, o filme me surpreendeu no bom sentido. Depois que assisti, liguei o PC e fui procurar sobre ele e só achei uma página em inglês na Wikipédia; fiquei decepcionado. Não sei da opinião de ninguém, nem de crítica alguma; parece ser um filme sem prêmios e que ninguém o tem como preferido. Tenho receio de dizer o que direi agora, pois sou meio clichê e gosto de filmes que os mais entendidos descartam, mas se já não tinha, o longa ganhou seu primeiro fã: eu.

Se, segundo quem realmente entende do assunto o filme não merece notoriedade – pois foi o que me pareceu –, uma coisa é certa: ele funcionou muito bem para mostrar que existem muitos filmes despercebidos por aí que têm a sua qualidade. Nesse aqui eu vi muita e, graças a quem inventou esse ditado, “gosto não se discute”. E uma delas, que não posso deixar de citar, é a trilha sonora. Quem melhor do que a música-símbolo da cultura francesa, de Edith Piaf, para tocar? Foi ótimo passar o domingo com Piaf na cabeça. “Cantei” tanto que meu irmão mandou que eu calasse a boca. Quando silenciei, bastaram cinco minutos para ouvir do meu quarto alguém assobiando ‘La vie en rose’ na sala.

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Ezequiel Fernandes


Sonhando Acordado (2006)

07/10/2011

E aí, galera? Como vão? O negócio aqui está meio parado porque o tempo está correndo para nós da equipe cinemafia. Mas sempre que pudermos daremos uma atualizada nas coisas. Vamos lá!

O onírico sempre me interessou bastante na arte. Seja na pintura de Salvador Dali ou no cinema de Luis Buñuel, esse tema tratado de forma bem surrealista, como foi por estes caras, chega a ser assustador de tão interessante. Esse longa aqui passa longe de ser uma grande filme, mas merece um certo olhar. Além de a temática já citada ser bem legal, o diretor do filme queridinho da galerinha cult, Michel Gondry de Eternal Sushine, também está nas rédeas desse aqui – isso foi definitivo para merecer meu tempo no sofá.

O filme trata de um cara chamado Stéphane Miroux (Gael Garcia Bernal) que, desde criança, tem dificuldade para distinguir sonho e realidade. Quando em sonho, é apresentador do programa “Stéphane TV” que discute acerca da ciência do sonho. Se já não bastasse essa confusão, a imensa criatividade dele não ajuda muito a separar as coisas. Apaixona-se por sua vizinha e quase xará Stephanie (Charlotte Gainsbourg), mas ela, embora “coma corda” (pelo menos inicialmente) das maluquices dele, acaba por querer não se envolver; ele tentará descobrir em seus sonhos o motivo – bem freudiano nosso personagem!

 Acho que é só isso mesmo. O filme é legal, mas não há nada de muito complexo nele não; e esse, a meu ver, foi o maior ponto positivo da obra. Tratar de um tema difícil com simplicidade foi o mérito maior do diretor. As imagens são bem legais: a criatividade materializada foi muito legal de assistir. Uma palavra sobre esse filme: legal.

 É um filme leve de atuações medianas. Bernal não estava num papel que o deixou muito seguro e Charlotte acabou tomando o foco nesse aspecto. O clima do filme é legal e o francês é muito agradável aos ouvidos. É inevitável a comparação com Eternal Sunshine, mas acho que só cabe o fato de terem a mesma direção; no mais, é tudo bem diferente  na minha humilde opinião. Enfim. O filme cumpre o escopo de alar a imaginação do cinéfilo. Vale conferir, gente!

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Ezequiel Fernandes


A Mulher Faz o Homem (1939)

16/09/2011

E aí, cinefilada! Bom, muito tenho me arriscado a falar de clássicos do cinema. É um risco que gosto de correr, sabe? Posso não ter bagagem suficiente para tal, mas tão bom quanto assistir a obras assim é comentar sobre elas; me empolgo. E Frank Capra, para mim, é uma fábrica de grandes filmes. Sou muito fã dele. Sempre com o intento de deixar grandes mensagens, lições de vida que passam longe de serem clichês, Capra cria fábulas de fábulas. Como assim?! Vamos falar um pouco de história…

Quando Esopo, como escravo na Grécia Antiga, foi incumbido de ensinar crianças sobre ética, moral, filosofia… ele teve que bolar um plano para que esses assuntos não parecessem tão chatos para o seu público. Criou então histórias que personificavam animais e possuíam um fundo moral – as fábulas. Essa moda caiu e só voltou lá pelo século XVII quando Jean de La Fontaine as redescobriu. Mas, moda que é moda sai e volta. Só no século XX foi que um cara chamado Walt Disney as trouxe de volta e ratificou de vez as fábulas, no cinema principalmente.

Achei que seria legal contar essas informações. Até porque, além ter um pouco de história do cinema, isso me dá um embasamento para explicar o que eu quis dizer com criar fábulas de fábulas. Então. Capra e seus roteiristas, de uma forma genial, personificam a própria ética, a moral, bondade, o altruísmo em seus personagens fazendo destes exemplos de seres humanos; os personagens contêm a fábula. E o público-alvo da vez somos nós, cinéfilos.

O protagonista do longa Mr. Smith Goes to Washington (o inigualável James Stewart) é tudo aquilo que citei acima – acrescido de muito patriotismo – encarnado. Jefferson Smith é um jovem caipira que se arrisca, em meio a um contexto que mais vale assistir do que resenhar, ir até Washington assumir o cargo de senador. Um personagem quixotano que ninguém melhor que o talentoso preferido de Capra e Hitchcock, Stewart, para interpretá-lo.

Deslumbrado com a grandiosidade da política de seu país e convicto de ter ali grandes exemplos de seres humanos que representavam em favor do bem comum, quão grande baque sofre ao descobrir que tudo, na verdade, era (im)pura corrupção. Em meio a falcatruas políticas, Mr. Smith com a ajuda de Clarissa Saunders (Jean Arthur) – daí a tradução meio esquisita, para variar, do título em português – porta-se, permitam-me a intertextualidade com a obra de Zinnemann, como o ‘O homem que não vendeu sua alma’. O desfecho do filme é genial. Puxa vida, como é genial! Vibrei e chorei, mais uma vez, frente à direção de Frank Capra. Apesar de ser de 1939, mais atual impossível. Coloquem mais esse na lista de vocês. Valeu, galera!

PS.: Não posso deixar de agradecer a meu sábio professor de literatura, Adriano Alves, que me ensinou acerca de quase tudo que falei acima.

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Ezequiel Fernandes


Ensaio Sobre a Cegueira (2008)

06/09/2011

Embora o filme seja bem claro no que quer passar, sua temática é muito complexa. Eu queria, pelo menos, ter tido a competência de ter lido o livro para não ficar tão acanhado por possuir um conhecimento tão raso a respeito de tal. Farei um breve comentário do filme, pois, até onde minha miopia intelectual permitiu que eu enxergasse.

Por falar em não enxergar…

A obra adaptada do romance de José Saramago, fala de uma cegueira que atingiu a população repentinamente, safando o personagem de Julianne Moore (esposa do doutor). Os afetados são colocados em quarentena à mercê do Estado e a esposa do doutor (Mark Ruffalo é o doutor) finge a cegueira para acompanhar o marido. E é nesse contexto que o ser e o humano entram em conflito.

A trama é brutal e sensível, ao mesmo tempo, porque sua metáfora está escancarada e o espectador facilmente capta a mensagem; e o filme faz sua reflexão e não joga todo o trabalho para o cinéfilo. Assim como Saramago disse ter sofrido escrevendo o livro e assistindo ao filme, sofremos também quando assistimos e paramos para pensar que somos seres e humanos e que, uma hora ou outra, um desses sobressai.

A direção de Fernando Meirelles é muito competente e ousada, como de costume, e as outras partes técnicas, como a fotografia “branca”, funcionam tanto quanto. O elenco conta também com Danny Glover, Alice Braga e Gael Garcia Bernal. Da adaptação do roteiro não posso falar, mas o próprio Saramago disse ao diretor “estar tão feliz de ter visto o filme como estava quando acabou de escrever o livro”. Parece que prestou, né?

O filme é do tipo que me agrada bastante. Agora vou ver se arranjo tempo para ler o livro. Da próxima vez que eu me atrever a analisar obras como esta, não quero ficar limitado a uma análise sem vergonha como a minha.  Cultura são os óculos que corrigem visão limitada. Queiram sempre mais.

“- Por que foi que cegamos?

– Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão.

– Queres que te diga o que penso?

– Diz.

– Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem. Cegos que, vendo, não vêem.”

Isso é tudo, pessoal.

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Ezequiel Fernandes